Você já passou horas rolando vídeos curtos, memes e publicações nas redes sociais e, depois, percebeu que estava com dificuldade para se concentrar, estudar ou simplesmente ficar alguns minutos sem pegar o celular? É nesse contexto que ganhou força a expressão “podridão cerebral”, tradução popular de brain rot.
Apesar do nome assustador, “brain rot” não é uma doença neurológica nem um diagnóstico médico. O termo descreve, de maneira informal e muitas vezes bem-humorada, a sensação de perda de concentração, cansaço mental ou redução do interesse por atividades que exigem mais atenção após o consumo exagerado de conteúdos digitais superficiais ou pouco estimulantes. Em 2024, a Oxford University Press escolheu “brain rot” como sua Palavra do Ano, depois que o uso da expressão aumentou 230% entre 2023 e 2024. Em 2025, o termo também foi incorporado ao Oxford English Dictionary.
O que está por trás desse fenômeno?
O problema não está simplesmente em assistir a um vídeo engraçado ou passar algum tempo nas redes. A preocupação aparece quando o consumo se torna excessivo, automático e difícil de controlar. O mecanismo de rolagem infinita, as recomendações personalizadas e a sucessão rápida de conteúdos podem estimular uma busca constante por novidades.
Pesquisas recentes ajudam a explicar por que o assunto ganhou tanta atenção. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 reuniu 71 estudos e 98.299 participantes e encontrou associações entre maior uso de vídeos curtos e pior desempenho em medidas cognitivas, especialmente atenção e controle inibitório. Também foram observadas associações com indicadores de saúde mental, como estresse e ansiedade. Isso, porém, não significa que vídeos curtos necessariamente causem deterioração cerebral: grande parte da literatura identifica associações, e outros fatores podem estar envolvidos.
Outro estudo publicado em 2025, com 745 participantes, encontrou relação entre frequência/duração do consumo de vídeos curtos, “imersão” na rolagem e relatos de dificuldades de atenção, memória de trabalho e fadiga cognitiva.
A questão também merece atenção entre adolescentes. A Organização Mundial da Saúde relatou que a proporção de adolescentes classificados como usuários problemáticos de redes sociais aumentou de 7% em 2018 para 11% em 2022, em uma pesquisa com quase 280 mil jovens de 44 países e regiões. Uso problemático envolve dificuldade de controle, abandono de outras atividades e consequências negativas na vida cotidiana.

Como evitar o “brain rot”?
A solução não precisa ser abandonar a tecnologia. O mais importante é recuperar o uso consciente: estabelecer períodos sem redes sociais, desativar notificações desnecessárias, evitar a rolagem automática antes de dormir, alternar entretenimento digital com leitura e atividades físicas e reservar momentos para conversas presenciais, criatividade e aprendizado.
Também vale observar sinais de alerta: você perde a noção do tempo constantemente? Tem dificuldade para parar? Deixa tarefas importantes de lado? Sente que precisa de estímulos cada vez maiores para se manter interessado? Se o uso digital estiver causando sofrimento ou prejudicando significativamente sua rotina, conversar com um profissional de saúde pode ser uma boa decisão.
No fim, “podridão cerebral” funciona melhor como um alerta cultural do que como um diagnóstico científico. A tecnologia não precisa ser inimiga do cérebro. O verdadeiro desafio é não permitir que o algoritmo escolha, sozinho, como vamos gastar nossa atenção.
